O que está a mudar no mercado de talento de Tax, em Portugal, em 2026: da especialização à escassez crítica.

22 junho, 2026

O mercado de talento na área de Tax, em Portugal, está a atravessar uma das maiores mudanças dos últimos anos. Se anteriormente existia uma maior estabilidade nas equipas fiscais (sobretudo, nas consultoras) e uma progressão relativamente previsível, hoje o cenário é substancialmente diferente: a procura por profissionais especializados aumentou de forma significativa e a escassez destes perfis começa a sentir-se de forma transversal no mercado.

Paralelamente, já não se fala apenas na dificuldade em contratar perfis muito seniores. A pressão faz-se sentir em praticamente todos os níveis de experiência, sobretudo ao nível de perfis de senioridade intermédia, em áreas técnicas específicas e em funções com maior exposição internacional.

Essa pressão de contratação, associada a maiores níveis de especialização e tecnicidade, decorre da evolução da economia e dos mercados, da globalização e da crescente complexidade regulatória fiscal, nomeadamente ao nível das alterações fiscais internacionais e das exigências de compliance e gestão de risco impostas às organizações.

Tal contexto determina que as empresas se adaptem. Os departamentos fiscais assumem hoje uma posição cada vez mais estratégica e valorizam profissionais especializados em áreas como International Tax, Corporate Tax, Transfer Pricing, IVA, Global Mobility e Private Clients.

Privilegiam-se candidatos com experiência consolidada em consultoras internacionais, sociedades de advogados de maior dimensão e/ou em estruturas multinacionais, não apenas pelo conhecimento técnico que esses contextos asseguram, mas também pela maior capacidade de resposta a ambientes exigentes, internacionais e em constante mudança.

No entanto, este tipo de perfil especializado (sobretudo, ao nível de middle management) é hoje um dos mais difíceis de identificar e reter no mercado, e parece-nos existir uma razão estrutural para isso.

Durante muitos anos, o mercado de Tax (em particular nas consultoras), assentou num modelo relativamente linear: integrar talento jovem, formar tecnicamente esses profissionais e fazê-los crescer progressivamente dentro da estrutura. Contudo, esse modelo começa a revelar sinais de desgaste.

Atualmente, muitos profissionais permanecem, em média, apenas dois a três anos em consultoria, antes de procurarem novos desafios em estruturas de cliente final. Essa mudança acontece precisamente numa fase em que as organizações exigem níveis de tecnicidade, especialização e maturidade profissional cada vez mais elevados.

Ou seja, o mercado procura profissionais “prontos” mais cedo, mas os contextos que tradicionalmente asseguravam essa formação deixaram de conseguir retê-los durante tempo suficiente. Esse é, provavelmente, um dos maiores paradoxos do mercado de talento de Tax em 2026.

O desafio das organizações já não reside apenas na atração de talento. Está, sobretudo, na capacidade de desenvolver e reter talento especializado num contexto em que os ciclos de permanência são cada vez mais curtos.

O mercado habituou-se, durante anos, a assumir que as consultoras seriam sempre as grandes escolas de formação de talento. A questão que começa agora a colocar-se é se continuarão a conseguir desempenhar esse papel nos mesmos moldes.

Tudo indica que as organizações que conseguirem combinar exigência técnica com investimento efetivo em formação, liderança, flexibilidade e percursos de carreira mais ajustados às expectativas atuais dos profissionais, estarão melhor posicionadas para responder a esta transformação.

Mais do que uma tendência temporária, tudo indica que o mercado de talento de Tax entrou numa nova fase: mais especializada, mais competitiva e estruturalmente mais exigente. Estarão as Consultoras preparadas para enfrentar este desafio? 

Por: Teresa Barroso,Senior Consultant - Tax&Legal, Consultancy.