Alexandra Andrade, Adecco Portugal: “A tecnologia pode ser um catalisador de propósito”

17 dezembro, 2025

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Alexandra Andrade, Country Manager da Adecco Portugal, analisa o impacto crescente da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho. Destaca os desafios culturais, de liderança e de propósito associados à transformação digital, bem como as competências essenciais para um futuro em que tecnologia e talento terão de evoluir lado a lado. 

IA continua a afirmar-se como um dos principais motores de transformação do mercado de trabalho, mas a sua adoção continua a gerar sentimentos ambivalentes entre os profissionais. Entre o entusiasmo pelas novas oportunidades e a desconfiança quanto ao impacto real, os dados revelam um momento de transição que vai muito além da tecnologia.

Para Alexandra Andrade, Country Manager da Adecco Portugal, “a IA não é, por si só, uma ameaça nem uma solução mágica -é uma ferramenta, cujo impacto depende inteiramente da forma como é integrada nas organizações”. A responsável sublinha que encarar a IA apenas como um custo ou um risco “é perder a oportunidade de a transformar numa verdadeira alavanca de talento, inovação e valor a longo prazo”.

A responsável defende ainda, em entrevista à RHmagazine, que o verdadeiro desafio é cultural. “A adoção da IA não pode ser vista como uma simples atualização tecnológica; é, acima de tudo, uma mudança profunda na forma como se trabalha, se lidera e se reconhece o valor das pessoas”, afirma.

O estudo mostra que 60% dos trabalhadores em Portugal acreditam que a IA está a criar mais empregos. Por outro lado, revela também que a confiança no seu impacto é apenas três em 10. Como explica esta combinação entre entusiasmo e desconfiança? Que fatores ajudam a moldar esta perceção?

A relação dos profissionais com a IA está a amadurecer e isso traduz-se precisamente nesta combinação entre entusiasmo e desconfiança. O estudo mostra que a maioria reconhece o potencial da IA para criar novas oportunidades no mercado de trabalho, seja através do surgimento de funções mais tecnológicas, seja por via da automatização de tarefas repetitivas, que libertam tempo para atividades de maior valor. No entanto, o baixo índice de confiança revela que esta transição ainda está longe de ser pacífica.

Há vários fatores que ajudam a moldar esta perceção. Desde logo, o desconhecimento sobre a forma como a IA está efetivamente a ser implementada nas organizações – muitas vezes, os profissionais ouvem falar do tema, mas não têm contacto direto com os seus benefícios reais. Por outro lado, existe também um receio legítimo de que a tecnologia possa acentuar desigualdades, tornar o trabalho mais impessoal ou, em casos mais extremos, colocar em risco postos de trabalho em áreas menos qualificadas.

Outro ponto relevante é o papel da liderança. A confiança na IA está diretamente ligada à forma como as empresas comunicam, envolvem e formam os seus colaboradores neste processo. Organizações que investem em literacia digital, em requalificação e numa cultura de transparência tendem a mitigar o medo e a aumentar o engagement com estas novas ferramentas. A oportunidade existe, mas exige uma abordagem mais humana, inclusiva e estratégica, que garanta que a tecnologia é vista como uma aliada – e não como uma ameaça.

Apenas 38% dos trabalhadores dizem sentir propósito no seu trabalho todos os dias. De que forma a IA e a transformação digital podem reforçar ou fragilizar esse sentido de propósito?

O propósito no trabalho está intima

mente ligado à perceção de utilidade, impacto e reconhecimento. Quando os profissionais sentem que o seu contributo faz a diferença – para a equipa, para o cliente ou para a sociedade – esse sentimento de propósito ganha força. O problema é que, num contexto cada vez mais automatizado e digital, este elo pode tornar-se mais frágil.

A IA e a transformação digital podem reforçar o propósito, desde que libertem os colaboradores de tarefas repetitivas e lhes permitam focar-se em atividades com maior significado, criatividade ou impacto estratégico. Por exemplo, um profissional que deixa de perder horas em tarefas administrativas graças à IA pode dedicar mais tempo à relação com o cliente, à inovação ou ao desenvolvimento de competências.

No entanto, o reverso também é verdadeiro: se a tecnologia for introduzida sem um enquadramento claro – e sem o envolvimento dos colaboradores no processo – pode gerar afastamento, desmotivação e até uma perceção de desvalorização. Quando alguém sente que está apenas a “alimentar um sistema” ou que o seu papel foi diluído por um algoritmo, o sentido de propósito tende a enfraquecer.

O verdadeiro desafio reside em garantir que a digitalização é colocada ao serviço das pessoas – e não o contrário. Isso implica lideranças mais conscientes, formação contínua e uma cultura de proximidade que reforce o sentimento de pertença. A tecnologia pode ser um catalisador de propósito, mas apenas se for acompanhada por uma estratégia humana, coerente e participativa.

Os profissionais afirmam poupar, em média, 80 minutos por dia graças à IA, mas só 36% conseguem medir o impacto real do seu trabalho. O que é que isto revela – um desafio de produtividade, de métricas ou, sobretudo, de cultura organizacional?

Esta aparente contradição revela mais do que um desafio de produtividade: expõe um desalinhamento entre as ferramentas disponíveis, as métricas aplicadas e a cultura organizacional vigente. Se, por um lado, a IA permite aos profissionais poupar tempo e automatizar tarefas rotineiras, por outro, a ausência de indicadores claros e partilhados torna difícil aferir o verdadeiro impacto do trabalho realizado.

Na maioria dos casos, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como as empresas estruturam – ou deixam de estruturar – os seus modelos de performance. Continuamos a ver organizações que medem a produtividade com base na presença ou no número de horas online, em vez de se focarem nas entregas, no valor gerado ou no impacto estratégico. Esta abordagem gera frustração e desmotivação, sobretudo numa geração que procura reconhecimento e sentido no que faz.

A solução não passa apenas pela criação de novos dashboards. Implica repensar a cultura de gestão: definir objetivos mais claros, promover uma comunicação mais transparente e capacitar as lideranças para dar feedback contínuo e construtivo. Só assim é possível transformar os 80 minutos ganhos com a IA em tempo de valor acrescentado – para a empresa e para os seus colaboradores.

Quase metade dos trabalhadores acredita que a IA vai chegar às suas empresas já nos próximos 12 meses, mas somente 23% dizem estar a ser envolvidos na transição. Como podem as empresas melhorar a comunicação e garantir que as equipas participam ativamente neste processo?

A adoção da IA nas empresas não pode ser encarada como uma simples atualização tecnológica – é, acima de tudo, uma mudança cultural. O facto de quase metade dos profissionais antecipar a chegada da IA às suas empresas, mas apenas 23% se sentirem envolvidos no processo, evidencia uma falha clara de comunicação e de inclusão estratégica.

Para que a transição digital seja bem-sucedida, as empresas precisam de adotar uma abordagem mais participativa. Isso implica, desde logo, comunicar com clareza os objetivos da transformação: que problemas se pretende resolver, que oportunidades se abrem para as equipas e qual será o impacto no dia a dia dos colaboradores. Mais do que informar, é necessário envolver.

Outro ponto crítico é a formação. Não se trata apenas de capacitar tecnicamente, mas também de reduzir o medo e criar confiança no uso da tecnologia. Quando as pessoas percebem que vão ganhar ferramentas – e não perder controlo – tornam-se aliadas da mudança.

Por fim, é fundamental que as lideranças estejam na linha da frente deste processo. São elas que devem dar o exemplo, ouvir ativamente as suas equipas e adaptar a implementação da IA à realidade concreta de cada função. Envolver é mais do que incluir numa reunião: é dar voz, acolher contributos e reconhecer o papel de cada um na construção do futuro.

O que é que as empresas precisam realmente de fazer para garantir que a IA beneficia os colaboradores e não apenas os processos?

Para garantir que a IA beneficia verdadeiramente os colaboradores – e não apenas os processos – as empresas precisam de colocar as pessoas no centro da transformação. Isso exige, antes de mais, uma visão clara de como a IA pode libertar tempo, potenciar competências e aumentar o valor humano do trabalho, em vez de o substituir ou automatizar sem critério.

O primeiro passo é envolver os colaboradores desde o início, não apenas como utilizadores finais, mas como participantes ativos no desenho das soluções. Isto permite uma implementação mais ajustada à realidade e reduz resistências naturais à mudança. Em segundo lugar, é essencial investir em requalificação contínua: formar para utilizar novas ferramentas, sim, mas também desenvolver capacidades críticas como o pensamento analítico, a criatividade ou a inteligência emocional – que ganham ainda mais relevância na era digital.

Outro ponto-chave é garantir que a IA é utilizada para aumentar a autonomia e não para intensificar o controlo. Se as empresas caírem na tentação de usar a tecnologia apenas para vigiar ou medir a produtividade ao segundo, perdem o foco no impacto real do trabalho. A IA deve ser uma aliada na criação de ambientes mais flexíveis, eficientes e humanos.

Importa ainda medir o sucesso da transformação não apenas pelos ganhos operacionais, mas também pelos indicadores de bem-estar, envolvimento e desenvolvimento profissional. Quando a tecnologia é implementada com intencionalidade, ética e foco nas pessoas, os benefícios multiplicam-se – para os negócios e para quem neles trabalha.

Olhando para os próximos anos, que competências vão ser mais determinantes para os profissionais que já convivem diariamente com sistemas inteligentes?

Nos próximos anos, à medida que a IA se tornar uma presença constante no dia a dia profissional, as competências mais determinantes serão aquelas que não podem ser replicadas por algoritmos – e que, simultaneamente, potenciam o valor da colaboração entre humanos e máquinas. Em primeiro lugar, destaca-se o pensamento crítico. A capacidade de interpretar dados, questionar padrões e tomar decisões informadas será essencial num contexto em que a IA fornece informação, mas não substitui o julgamento humano. Saber distinguir correlação de causalidade, validar fontes e avaliar consequências torna-se uma vantagem competitiva.

Em seguida, ganham relevância as chamadas soft skills complexas, como a inteligência emocional, a empatia e a comunicação eficaz. São estas competências que permitem liderar equipas diversas, navegar contextos de mudança e construir relações de confiança – especialmente em ambientes híbridos ou digitais, onde a conexão humana precisa de ser intencionalmente cultivada. A aprendizagem contínua (learning agility) será outra competência central. Num mundo em que as ferramentas mudam rapidamente, os profissionais mais valorizados serão os que demonstram curiosidade, abertura à mudança e capacidade de requalificação constante.

Será também cada vez mais valorizada a capacidade de colaborar com a tecnologia: compreender o funcionamento básico dos sistemas de IA, saber utilizá-los estrategicamente no seu contexto profissional e, acima de tudo, não ter receio de os desafiar. O profissional do futuro não é aquele que compete com máquinas – é o que sabe usá-las para amplificar o seu impacto humano.

Que mensagem deixaria às empresas que continuam a olhar para a IA como uma ameaça ou um custo e não como uma alavanca de talento e valor?

A IA não é, por si só, uma ameaça nem uma solução mágica – é uma ferramenta. E, como qualquer ferramenta, o seu impacto depende da forma como é integrada nas organizações. Continuar a encarar a IA apenas como um custo ou um risco é, no fundo, perder a oportunidade de a transformar numa verdadeira alavanca de talento, inovação e valor a longo prazo.

As empresas que liderarão o futuro são aquelas que conseguirem colocar a tecnologia ao serviço das pessoas, e não o contrário. A IA pode libertar tempo, aumentar a eficiência e eliminar tarefas repetitivas – mas só cria valor real quando é acompanhada por uma visão estratégica, uma cultura de aprendizagem e uma liderança humana.

Ignorar este potencial significa ficar para trás, tanto na atração de talento como na competitividade global. Investir em IA é investir na capacitação das equipas, na otimização de processos e na criação de espaços de trabalho mais inteligentes, mais humanos e mais preparados para o futuro. A escolha não é entre pessoas ou tecnologia – é entre estagnar ou evoluir.

in RH Magazine